Sobre a avaliação da cultura e outros pavores
“(…) que más allá de declaraciones y buenas intenciones, o de promoción de imagen externa de una ciudad, se conviertan en vectores importantes en el establecimiento de una política de desarrollo cultural local, donde el equilibrio entre propuestas innovadoras y la realidad social ciudadana sea un elemento a tener en cuenta en la toma de decisiones y en la forma y estilo de gestionar estos nuevos contenidos en las políticas culturales urbanas.”
Somente nos últimos 15 ou 20 anos a nossa academia tem se dedicado com mais afinco à avaliação de ações, projetos e programas culturais. Superando ainda dificuldades que variam do preconceito com a introdução desses temas e campos de saber (múltiplos), ao uso de metodologias mais adequadas a nossa realidade, e às infraestruturas das universidades, temos visto maior interesse dos pesquisadores (independentes ou não e uma interseção maior do campo científico com a gestão pública). Do ponto de vista do ensino, especialmente nos cursos mais relacionados às artes e à produção cultural, somos ainda poucos (se pensamos na dimensão do país e na centralidade do Estado na gestão e fomento à cultura no país) , a encarar, pesquisar e criar maiores interlocuções com outras instituições de ensino ou na contribuição mais direta na realidade. Além dos problemas óbvios de critérios culturais e ferramentas, salvo exceções, ainda pecamos na concepção estrutural, que considera repetição mérito e pensamento independente, desvio. Talvez resida aí mesmo certa resistência à avaliação das políticas e ações culturais. O processo de avaliação é um item inerente ao conceito de planejamento. Ora, se como já colocado por tantos colegas, há considerável dificuldade em criar e seguir um planejamento na área da cultura, como esperar que o processo de avaliação seja tranquilo? Não estamos fechando os olhos para o fato de que no mais das vezes a dificuldade em planejar esteja – quiçá, sobretudo – no errôneo entendimento das políticas públicas de cultura como políticas de governo e não de Estado. Essa tendência está sendo superada, graças a uma atuação constante da sociedade organizada e de alguns aliados no campo político legislativo. Sem contar com a complexidade dos nossos objetos, que intensificam os esforços no sentido de criar métodos de avaliação que deem conta dessas particularidades. Por outro lado, se ignorarmos essas questões, ainda que por uma questão de método, para seguirmos em frente no raciocínio, não é raro exigirmos prestação de contas a Governos, Autarquias e ONGs. Entendemos a necessidade e aprovamos a existência de institutos de pesquisa e fiscalização para empresas mistas e entidades públicas. Se a todas as áreas cobramos prestações de contas, para que comprovem o bom emprego dos recursos – e, do contrário, que sejam punidas – por que nos incomodaria a necessidade de avaliar e prestar contas na área da cultura e da arte? “Yet, this is a relevant, serious and... old debate”, comenta Greffe em seu texto Creative Cities: The Cultural Issue, referindo-se à discussão sobre Cidades Criativas. Concordamos então que há dificuldades a serem superadas pelos sistemas de avaliação de fenômenos complexos: os fenômenos estão acontecendo, em mudança, enquanto tentamos agarrá-lo para fazer um questionário; a inovação e a criatividade, oásis do mundo dos critérios de sucesso, podem ser tão subjetivas quanto adivinhar desenhos em nuvens; avaliar, em momentos de crise, pode gerar ainda mais receio sobre os resultados. Apesar de tudo isso, não será preciso inventar a roda. Apenas usar várias delas. Articular, portanto, pesquisas quantitativas com as qualitativas; equacionar as diferenças entre as lógicas de curto prazo da perspectiva mercadológica (talvez comercial fosse o termo mais adequado?), com a de longo prazo do processo artístico; verticalizar as pesquisas, ao invés de aumentar sem propósito claro, a abrangência do corpus; ter em conta as inúmeras variáveis do ambiente.
Não avaliar, pelo simples argumento de que números não são adequados para mensurar a área, terminam como armadilhas que plantamos para nós mesmos, gestores, produtores, artistas, pesquisadores da área. Com foco, equipe multidisciplinar e uma boa construção metodológica, as avaliações podem gerar caminhos para o fomento que não se apoiem de forma restrita no modelo de financiamento exclusivamente público à cultura. O planejamento de políticas, se baseado em evidências, pode nos levar a modelos inovativos de fomento à produção, garantia de acesso e democratização da criação e do consumo, bem como aspectos tão relevantes quanto a formação e a preservação. Isso implica algo que, neste momento, me parece ainda mais sintomático: a importância capital que é pensar essas políticas de forma sinérgica, dando conta de todos os elos da cadeia e suas problemáticas inerentes. E, no fim, ou no "frigir dos ovos”, como se diz por aí: a questão é, do fundo, financeira, pois os recursos não crescem de maneira inversamente proporcional ao crescimento dos agentes do setor e do potencial público consumidor. Embora seja necessário, útil e até compulsório, a conta simplesmente não fecha e os recursos públicos deixam vários artistas e produtores e públicos de fora. Os limites da avaliação existem. Mas não podem ser limitadores de nossas reflexões, uma vez que os números e os resultados não falam por si sós: precisam de relatórios, contextualizações, ponderações e conclusões que estão a cargo dos pesquisadores. Enquanto o sistema econômico vigente for o capitalista, falar em mercado e avaliação não pode ser um pudor. Devemos ser nós, artistas, produtores e gestores, os primeiros a nos instrumentalizarmos para que não instrumentalizem negativamente a arte e a cultura, conforme escreve o professor Alfons Martinell Sampere, já citado acima: para além de propaganda, a criatividade e a inovação devem se converter em vetores efetivos do desenvolvimento local, calcados na valoração das competências humanas e cidadãs com efeitos, portanto, duradouros.
Referências
SAMPERE, Alfons Martinell. Más cultura a la educación para responder a las necesidades creativas. Segundas jornadas ciudades creativas. Fundación Kreanta 26 y 27 noviembre 2009. Barcelona, 2009)
GREFFE, Xavier. Creative Cities: The Cultural Issue.